#Entrevista - Tim Marvim

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Entrevista com o autor do livro 666 Caçadores de Demônios, Tim Marvim. (Resenha)

Poderia se apresentar aos leitores do Blog?
Meu nome verdadeiro é José Antonio Martino e utilizo o pseudônimo literário de Tim Marvim para escrever alguma coisa, como é o caso do romance “666 – Caçadores de Demônios”. Sou formado em Letras pela USP, já fui premiado em diversos concursos de literatura por todo o Brasil e possuo oito livros escritos, sendo quatro publicados. Não quis assinar esta obra com meu nome, porque se trata de um estilo de literatura bem diferente do que escrevo normalmente. Na verdade, este é meu primeiro romance na linha de aventuras, enigmas e mistérios. Além do mais, imaginei que seria bom para alavancar as vendas na internet um nome assim com ares estrangeiros, pois muitos leitores não compram livros neste estilo de autor nacional. Puro preconceito, mas é uma realidade que não se pode contestar. Sou proprietário de um sebo e sei bem o que estou falando. Com exceção de um e outro, escritor nacional só vende livro quando obrigam o aluno a lê-lo em sala de aula. Tenho clientes que compram romances tipo Sabrina, Júlia, toda semana, mas nunca passam nem perto da estante de literatura brasileira.

Como a capa do livro foi escolhida?
Esta capa tem me dado uma dor de cabeça terrível. Fui eu mesmo quem a fez e confesso que ficou medonha. Não sei onde eu estava com a cabeça, quando a criei. Praticamente, matei o livro com ela. Não dá bem a ideia do conteúdo do romance, embora ela seja muito importante para a compreensão do principal enigma da obra. Pela capa, as pessoas imaginam que vão ler um romance na esteira de Crepúsculo, com vampiros adolescentes e essas coisas, mas penso que meu livro é muito diferente disso. Tenho recebido tantas críticas por causa dela, que já perdi as contas. Jamais a usaria novamente numa segunda edição. Cansei de ler na internet gente dizendo que o livro até parece interessante, mas que nunca o leria por causa da capa. Pelo menos, fica-me o consolo das pessoas que leram o 666 e se surpreenderam com o enredo, de certa forma intrigante e envolvente.

Como iniciou a sua carreira de escritor?
Quase todos os escritores que conheço começaram escrevendo poesias na adolescência. O meu caso foi diferente, pois iniciei escrevendo contos na época da faculdade. Naquele tempo, eu, meu irmão e um amigo que morava em Itapetininga, decidimos publicar um fanzine literário, chamado Arlequinal, que era distribuído gratuitamente e enviado para todos os estados do Brasil e também para o exterior. Com isso, acabei conhecendo muitos poetas e escritores, que nos enviavam seus textos para serem publicados no Arlequinal. Todo dia, chegavam pelo menos umas dez cartas com poemas e livros, que respondíamos sempre na medida do possível. Foi um período muito rico e gratificante para nós três, mas o advento da internet acabou matando praticamente todos os fanzines literários, bem como aquela rede alternativa de poesia e literatura, que se comunicava através de cartas.
Havia um jornalzinho de Santos que divulgava concursos literários. Quando o recebi pela primeira vez, tomei coragem e decidi mandar um de meus contos para um concurso no Paraná. Para minha surpresa, logo no primeiro concurso que participei, acabei ficando em primeiro lugar. Isto foi, sem dúvida, um grande incentivo para eu continuar escrevendo.

De onde veio à inspiração para escrever o livro “666 - Caçadores de Demônios”?
A minha intenção era escrever um livro, cuja história agarrasse o leitor de tal forma, que ele somente largaria o volume após desvendar o último enigma. Além do mais, queria escrever algo para ser filmado e, por isso, todas as cenas do 666 são plasticamente bastante visuais, como se o leitor “observasse” a história através de um enquadramento cinematográfico. Imaginei que um romance repleto de peripécias, aventuras e mistérios seria um bom começo. Queria um tema universal e, se possível, atemporal, ou seja, que tocasse as pessoas de todos os lugares e épocas. Em função disto, passei a considerar a hipótese de trabalhar com o tema do “fim do mundo”, pois se trata de um assunto que se aplica todos os seres. Comecei a ler sobre previsões apocalípticas, demonologia, história da igreja e dos templários, de maneira que tudo isso somado foi tomando corpo. Após muitas leituras, passei a idealizar o que eu chamo de “alicerce” do romance, isto é, toda a estrutura da obra, como a elaboração do enredo, a caracterização dos personagens, a escolha dos cenários, a criação dos enigmas, etc. Esta etapa levou mais de um ano e não foi fácil, pois tudo precisava estar perfeitamente sincronizado, caso contrário, o livro falharia. Somente comecei a escrever, quando já tinha na cabeça tudo pronto. Aí, foi fácil.

Você tem alguma outra atividade profissional? Se sim, ela influencia no seu trabalho de escritor?
Como disse, sou formado em Letras, mas não exerço a profissão. Sou proprietário de um sebo na minha cidade, o que equivale a dizer que trabalho em meio a livros e passo grande parte do meu tempo no agradável convívio de literatos do mundo todo, como Tolstoi, Gabriel García Márquez, Fernando Pessoa e Machado de Assis. Para atender meus clientes, preciso conhecer um pouco de literatura e estar bem informado com relação a escritores e lançamentos. De certa forma, tudo isto me ajuda a ter uma visão mais ampla do meio literário.

Qual dica você daria para quem quer seguir a carreira de escritor?
Antes de mais nada, paciência e perseverança. Diz um ditado que o que se faz sem tempo, o tempo não respeita. Inúmeros escritores me dizem que escrevem como falam, pondo em prática aquela velha tese pregada, entre outros, por Miguel de Unamuno. Pois não venham reclamar depois que as pessoas não dão o devido valor a seus escritos. É óbvio que quem procede dessa maneira acaba trazendo para o ambiente elevado da literatura todos os detritos e lixo inerentes à modalidade oral da língua.
E muitos daqueles que seguem o exemplo do ex-reitor da Universidade de Salamanca não o fazem apenas porque se identificam com o pensamento do mestre espanhol, mas simplesmente porque não possuem o espírito paciente e perseverante que o gênio artístico exige. Querem fazer tudo para ontem, apressadamente, como se a obra de arte fosse latrina de rodoviária, cuja existência estriba-se na urgência e na desocupação rápida. O texto mal escrito, mal meditado e mal corrigido parece que lhes queima os próprios dedos. Esquecidos do conselho de Guimarães Rosa, que dizia para o artista construir pirâmides e não fazer bolinhos, eles preferem comer o bolinho frio do dia ao enorme trabalho de erguer uma obra consistente e duradoura. Segundo Théophile Gauthier, “somente a arte robusta goza da eternidade”.
Muitas vezes, toda essa afobação provém do fato de possuir o autor um ego maior do que o próprio talento. Pessoas há que escrevem versos e posam de poetas apenas para alimentar a própria vaidade doentia, buscando um conforto duvidoso em elogios vazios e, na maioria das vezes, falsos. Mal põem ponto final num poema e já o atiram na cara dos amigos, famintos para receber algumas migalhas de aprovação e louvor. Não são poetas, mas mendigos-versejadores que buscam angariar o troco reles da glória miúda.
É próprio dos apressados deixar as coisas inacabadas. Se o escritor abandona seu texto após o primeiro esboço, ele terá grande chance de parir um aleijão. Escrever é como construir uma casa. Você pode até morar nela logo após levantar as paredes e concluir o telhado. Mas todos sabem que a casa não está pronta. É necessário fazer o acabamento, revestir as paredes, assentar o piso, pintar os muros para que a sua aparência se torne mais agradável. O mesmo ocorre com um texto literário. Dá-los ao público sem maior meditação, corresponde a habitar uma casa inacabada.

Você acha que as editoras dão o devido espaço para os autores brasileiros?
Elas fazem o possível. Antes de mais nada, as pessoas têm de entender que as editoras são empresas e sobrevivem em função do lucro que conseguem obter. Creio que todo escritor já passou por esta experiência pelo menos uma vez na vida. Após um longo período dedicado a escrever um livro, sacrificando finais de semana e boa parte de seu tempo livre no emprego deste árduo trabalho, finalmente o novel aspirante à glória literária vê sua obra concluída. Ele dirige-se a alguma papelaria e manda tirar umas cinco ou seis cópias dos originais, encadernando-as em espiral. Depois, ao retornar para casa, senta-se diante do computador e passa a procurar o endereço das felizardas editoras, que terão a honra de receber o seu promissor original. Normalmente, acaba escolhendo as mais conhecidas e prósperas, pois acredita que elas terão maior competência para vender o seu livro, no caso de ser aceito, embora, muitas vezes, nunca tenha comprado um único volume destas mesmas casas editoriais.
Seis meses depois, recebem uma cartinha padronizada, dizendo que no momento a sua obra, que possui qualidades inquestionáveis, não poderá ser publicada por isso ou por aquilo. O blablablá de sempre.
Na verdade, os editores têm seus motivos para as frequentes recusas. Não há dúvida de que, se eles tivessem absoluta certeza de que o livro se tornaria um sucesso de vendas, a obra seria publicada. Isto, porém, é impossível de se prever com relação a autores de renome, quanto mais com iniciantes. Toda gente sabe que as grandes editoras recebem mensalmente uma quantidade gigantesca de originais e tal fato acaba tendo um custo para elas, uma vez que, quase sempre, são obrigadas a pagar profissionais para lerem as obras recebidas. É claro que todo editor sempre sonha em encontrar um livro com extraordinário potencial de vendas (note-se que um livro com extraordinário potencial de vendas é uma coisa bem diferente de um livro com excepcional qualidades e méritos literários) e, por isso, eles procuram ler todo material que lhes chega. Muitas vezes, um livro bem escrito, que honraria o nome de qualquer editora ao tê-lo entre suas publicações, não possui apelo comercial e é descartado. Normalmente, o público compra o nome do autor e não seus livros. Há o caso de um editor inglês que preferia comprar livros ruins de escritores consagrados a livros bons de algum desconhecido, quando poderia pagar quatro vezes menos ou nada por seus direitos de publicação.
É incrível como alguns escritores são ingênuos a ponto de acreditarem que suas obras começarão a vender misteriosamente da noite para o dia. Isto não acontece gratuitamente, por melhor que seja o livro. O autor recusado por uma editora começa a se achar um gênio incompreendido, que os editores são uns crápulas, mas quase nunca procuram compreender o ponto de vista da casa editorial. Basta fazer as contas, para se ver que o lucro de um editor, numa primeira edição, é baixíssimo. Suponhamos que um livro de umas duzentas páginas custe R$ 10,00 para ser impresso numa gráfica com a qualidade que todo autor deseja. E o preço final na livraria é de R$ 30,00. Qual seria o lucro do editor?
Bem, de início, o custo de produção do livro na gráfica já levou 1/3 da receita. Restam R$ 20,00 para o editor. Dessa parte, ele tem que pagar a livraria que revende o livro e que costuma receber entre 30% ou 40% na média. Para facilitar o cálculo, vamos estabelecer que também a livraria leve 1/3 da receita total, ou seja, R$ 10,00. Sobram para o editor exatamente R$ 10,00. Mas este ainda não é o seu lucro. Ele precisa pagar o autor, que costuma receber 10% do valor da venda do livro. Neste caso, R$ 3,00, ficando R$ 7,00 para o editor. Porém, os custos não param por aí. Para se colocar um livro numa livraria, o editor precisa contratar uma distribuidora, que não costuma trabalhar de graça. Além dela, é necessário pagar revisores, capistas, profissionais que fazem a edição do texto, ilustradores, etc. Sem contar a verba destinada à publicidade do livro, indispensável para o sucesso de qualquer obra literária. Em suma, se se vender toda uma edição de 2 mil exemplares, tiragem que normalmente se publica de um escritor iniciante no Brasil, o que sobra para o editor é uma quantia irrisória diante do capital investido, sem dizer que os riscos são enormes e todos dele. Por isso é tão difícil ter originais aceitos por uma editora tradicional. Mesmo que seu livro seja excelente, quem garante que o retorno que ele dará irá compensar o investimento do editor?

Se fosse para escolher uma frase de seu livro, qual escolheria?
Esta pergunta me pegou meio de surpresa... Precisaria reler o livro para ter certeza, mas uma frase de que me recordo e que me toca profundamente é a maldição que Jacques de Molay, o último grão-mestre do Templo, rogou sobre o rei da França, Felipe IV, o papa Clemente V e o abominável ministro Guilherme de Nogaret. Segundo consta, este episódio teria sido um fato histórico e tais palavras foram as últimas ditas por Jacques de Molay, antes de queimar em praça pública. Como romancista, tomei a liberdade de dar às palavras dele um tom mais comovente, dramático e literário.

“Em seguida, (Jacques de Molay) dirigiu-se ao ministro, ao rei e ao papa em tom ameaçador:

- Vós, ministro diabólico e libertino, em vez de tecer intrigas na corte, difamando a dignidade de uma Ordem que sempre pautou sua existência em defesa da fé cristã, deveríeis saber melhor aconselhar vosso rei, pois para isto fostes alçado ao cargo que ocupais; Vós, papa de Satanás, subserviente e corrupto, deveríeis zelar por vosso rebanho, procurando encaminhar a alma dos fiéis para a glória celeste e não prostituir o trono de São Pedro, dobrando-vos a interesses mesquinhos, como fizestes durante todo o vosso pontificado; E vós, rei ganancioso, traiçoeiro, desleal e hipócrita, que trazeis no peito um ninho de escorpiões em vez de um coração, deveríeis dedicar-vos ao bem-estar do povo e não apenas ao vosso real umbigo. Lembrai-vos que sois lama e nada levareis desta terra onde marcastes a planta de vossos pés. Pois quem tem ouvidos, ouça: ainda este ano todos vós estareis mortos e vos intimo a comparecer diante do tribunal de Deus para responder por vossos crimes!”


Quais são seus planos para o futuro?
Continuar escrevendo e, quem sabe, ver este meu romance “666 – Caçadores de Demônios” ser publicado por uma grande editora, traduzido para outras línguas e filmado por Hollywood, rsrsrrs...

Agradeço ao Tim pela entrevista, parceria e amizade. Muito sucesso e ainda vamos ver a história do seu livro no cinema hein.

Lembrando:
O livro pode ser adquirido pelo blog http://666romance.blogspot.com ou pelo email: timmarvim@ig.com.br

4 comentários:

  1. Que entrevista ótima, adorei! Estou torcendo mais ainda para ganhar 666 no sorteio agora! Gostei principalmente das dicas para os escritores principiantes.

    Que isso, a capa não é medonha. Eu gostei, e acho muito bacana quando as capas tem uma relação importante com a história. Confesso que me indigno quando as pessoas dizem que não leriam uma história por causa de uma capa. Para mim a capa pode ser um belo atrativo, mas o essencial para me interessar por uma história é a sinopse e resenhas que eu possa vir a encontrar. Livro não é enfeite! Se atrair por uma capa é normal, mas rejeitar livros por causa de uma que não se goste, é uma coisa que não entendo.

    ResponderExcluir
  2. Entrevista interessante... Ainda não conhecia o autor nem o livro. Fiquei interessada, vou procurar saber mais. :)
    Beeeijos

    Marina Oliveira
    http://distribuindosonhos.blogspot.com

    ResponderExcluir
  3. Adorei a entrevista e fiquei curiosa pelo livro...
    Estou passando para retribuir sua visita no blog.
    Muito Obrigada.
    Bjos!!!
    Andréia
    Sentimento nos Livros

    ResponderExcluir
  4. Gostei da entrevista, o autor parece ser bem legal e me deixou com vontade e ler o livro.
    Gostei principalmente a opinião sobre as editoras, fico feliz que ele entende como funciona o sistema e não é 'revoltado' como alguns autores.


    Luana - Lendo ao Luar

    ResponderExcluir

Just Livros Todos os direitos reservados. Criado por: Amanda Nello.Tecnologia do Blogger. imagem-logo